Foto: Vinicius Becker (Diário)
Nas primeiras horas da manhã desta Sexta-Feira Santa (3), a família Krauchemberg seguiu em direção às margens da BR-158, nas proximidades da Fazenda Philippson, em Itaara. Há mais de quatro décadas, o destino se repete na mesma data: é ali que eles mantêm viva a tradição da colheita da marcela, um ritual que atravessa gerações e reúne fé, convivência e memória familiar.
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A erva, considerada símbolo do Rio Grande do Sul, carrega um significado especial para quem mantém o costume. Segundo a crença popular, deve ser colhida ainda com o orvalho da madrugada, antes dos primeiros raios solares, momento em que suas propriedades estariam mais intensas.
No campo, o cenário se repete ano após ano: passos entre a vegetação, conversas baixas e mãos cuidadosas separando os ramos da planta. Mais do que a colheita em si, o que se preserva é o encontro.
Tradição
A tradição da família começou com o patriarca, Ari Borba Krauchemberg, 73 anos, e segue viva com a esposa, Maria Sueli Godoi Krauchemberg, 80, os filhos e, agora, os netos. Entre eles, está a policial militar Raquel Krauchemberg Scheffer, 50 anos, comandante do Grupamento de Polícia Militar (GPM) de Itaara, que cresceu acompanhando o costume e hoje o mantém com a própria família.

– Eu me criei vendo o pai fazer isso, desde criança. Antes, ele saía de madrugada com amigos, depois íamos juntos: mãe, avó, tios… virou uma tradição de família. Hoje, eu faço com meus filhos, e a ideia é que eles levem isso adiante – conta.
Neste ano, Raquel participou da colheita ao lado do esposo Gilmar Scheffer, 49 anos, distribuidor, dos filhos, Kauan Krauchemberg Scheffer, 20 anos, estudante universitário de design, e Yuri Krauchemberg Scheffer, 10 anos, além dos pais, sobrinhos e irmãs, entre elas, está Tatiana Medianeira Godoi Krauchemberg, 46 anos, corretora de imóveis, que veio de Balneário Camboriú (SC), especialmente, para passar a data com a família.
Para Raquel, o significado vai além da crença religiosa.
– É um momento de estar junto, de fazer algo que traz benefício para a saúde, mas também tem essa questão espiritual, da fé. E tem o valor de estar em família, de conversar, de relembrar histórias. Isso é o mais importante – destaca.
A escolha do local também faz parte do ritual. Segundo ela, a marcela costuma ser encontrada em áreas específicas da região, principalmente nas proximidades da Fazenda Philippson, onde a família realiza a colheita com frequência.
Novas gerações
Em 2017, a família já havia sido registrada pelo Diário durante a colheita, mostrando que o costume permanece mesmo com o passar dos anos. Hoje, o desafio é manter o interesse das novas gerações em meio às mudanças de hábitos e estilos de vida.

Kauan, o filho mais velho, reconhece as transformações, mas valoriza o momento como uma pausa necessária na rotina.
– Na minha geração, talvez isso não seja tão comum, principalmente em famílias menores ou na cidade. Mas eu gosto muito de participar. É um momento de parar, de estar junto. Às vezes, a gente só se encontra nessas ocasiões – relata.
Ele também destaca que datas como a Páscoa acabam ganhando novos significados, especialmente em tempos de dificuldades econômicas, em que o foco se volta mais para a convivência do que para o consumo.
Benefícios da marcela
Além do simbolismo religioso, a marcela também é reconhecida pelos seus efeitos medicinais. Utilizada tradicionalmente para problemas digestivos, a planta tem ganhado respaldo também em estudos ligados à fitoterapia.

A nutricionista Letícia Monfardini destaca que o uso da erva está ligado a saberes populares que atravessam o tempo.
– A marcela é uma das ervas mais interessantes que temos. Ela ajuda muito no processo digestivo, o que não é por acaso nessa época do ano. Além disso, existem evidências de que pode auxiliar no controle da pressão e no funcionamento do organismo como um todo – explica.
Segundo ela, o uso da planta vai além dos benefícios físicos. Há também uma conexão simbólica e emocional com o período da Páscoa, que convida à reflexão e ao cuidado com o corpo.
Comercialização no centro
Antes mesmo da colheita tradicional, a marcela já vinha sendo comercializada no centro de Santa Maria, principalmente por grupos indígenas. Os maços foram vendidos, em média, entre R$ 10 e R$ 15.

Neste ano, no entanto, a oferta enfrentou dificuldades. De acordo com o cacique Natanael Claudino, 44 anos, da etnia kaingang, a erva precisou ser trazida de outras regiões, como o município de Tenente Portela, no noroeste do Estado, devido à escassez local.
Outro fator que impactou foi a queda nas vendas. Conforme ele, o feriado ocorrido antes do quinto dia útil do mês influenciou diretamente o movimento, já que muitos consumidores ainda não tinham recebido seus salários.
Entre fé, natureza e família
Com o amanhecer, a paisagem muda – mas o sentido do ritual permanece. A marcela colhida ainda úmida do sereno carrega mais do que propriedades medicinais ou simbolismo religioso: ela guarda histórias, vínculos e a continuidade de um costume que resiste ao tempo.
